Livro de horas

livro de meditação privada, instrumento por excelência da meditação íntima. É uma adaptação do breviário, usado pelos membros do clero, agora para uso dos leigos, popularizado pela devotio moderna. O livro de horas vai buscar ao breviário os seus elementos principais: calendário, salmos penitenciais, ladainhas, sufrágios, ofício de defuntos, e o chamado pequeno ofício da virgem Maria. Este tornar-se-á a oração favorita dos leigos e o texto base dos livros de horas. Como este pequeno ofício era mais comummente conhecido por “horas da virgem”, os livros passam a designar-se por livros de horas. No entanto, para além da importância que concedem às horas da Virgem, os livros de horas apresentam ainda outras diferenças em relação aos breviários: são independentes face ao ciclo litúrgico e a sua recitação não tem carácter obrigatório, dizendo respeito apenas à devoção privada. Por outro lado, a sua composição escapa ao controle da Igreja, e o copista pode dispor os textos como quiser, às vezes acrescentando textos da sua escolha ou da do encomendador, por vezes profanos. Não há dois livros de horas iguais. Cada livro era produzido por uma equipa, por encomenda, de acordo com o gosto, estatuto e posses do encomendador, pelo que geralmente revela uma ligação estreita, e por vezes reveladora, com um indivíduo específico. Alguns exemplares dão mostras de terem sido muito usados. Marcas de cera, velas ou óleo de candeias, folhas perdidas, encadernações substituídas ou muito gastas, etc. Inclusivamente, o hábito de beijar algumas páginas estraga folhas. Eram adquiridos sobretudo por ocasião do casamento. Os livros de horas tinham fins espirituais e medicinais. Num sentido lato, cada exemplar pode ser considerado terapêutico, uma vez que orações a determinados santos tinham como fim aliviar certos males. Às vezes serviam como livros de razão, onde se anotavam os bons e maus sucessos de família, onde se guardavam pequenos objetos de piedade, sendo os mais comuns os rosários, o que mostra que estes se desenvolveram simultaneamente com os livros de horas no final da Idade Média. Era também nestes livros que as crianças aprendiam a ler. Profusamente iluminados, os livros de horas eram geralmente de produção flamenga ou do norte da França. Podiam ter encadernações luxuosas, com ouro e pedras preciosas, sendo guardados num saquinho de cabedal fino ou numa caixa, semelhante a um escrínio de joia.

Fonte: Serra, 1998, pp. 15-29. IS