Galeria

Eu não sabia o que era um golpe de Estado

Eu não sabia o que era um golpe de Estado

Portugal

2011

Luís Cunha

Entrevista

Memórias de migrantes

“O meu avô era do Barreiro, natural do Barreiro, mas já vivia em Lisboa há muitos anos e a minha avó era de Lisboa. Inclusive a minha bisavó penso que eram pessoas de algumas posses em Lisboa, acho que eram comerciantes, mas entretanto, com a revolução, houve uma quebra bastante grande, portanto, o meu avô foi primeiro e depois foi a minha avó ter com ele. São os chamados colonos, os chamados primeiros colonos e o meu avô na altura trabalhou nos caminhos de ferro de Moçambique até a altura em que tem um desastre, portanto, vai buscar um colega a um armazém que se incendiou e fica com dois terços de corpo queimado, então é reformado pelo caminho de ferro nessa altura. Depois vive de várias coisas, da pesca, da reforma dele, fazia imensas coisas, desde eletricidade, etc. e vive assim. Entretanto ele morre lá, a minha avó também, a minha mãe ainda é viva, felizmente, e o meu pai também e viemos, portanto toda a família, após o 25 de Abril. Eu vim um ano após a independência, fiz um contrato de cooperação em Moçambique, porque… independentemente de ter nascido em Moçambique havia ali um problema, primeiro, naquela altura era muito mau a cor, e em segundo lugar eu tinha feito a tropa, tinha acabado a tropa há meia dúzia de tempo e estava complicado… então vim embora em princípios de 76, portanto estou cá há trinta e cinco anos. Nunca tinha vindo a Portugal, vim a Portugal uma vez de férias 15 dias, portanto, a minha vida foi toda lá, os meus estudos foi tudo lá…”

“Ainda apanhei 73, todo o ano de 73, parte de 74 e a parte de 74 foi a pior, sem dúvida, porque é a altura em que há o 25 de Abril, em que começam as conversações e começam as intensificações para mostrar poderio… foi mau. Eu estava numa companhia de intervenção, que sou atirador de infantaria, portanto já pode ver, é aquilo que a gente chamava para caça, carne para canhão e eu estava sediado numa zona muito boa que era a zona do grua, zona do chã, a minha companhia era ali, mas tinha intervenções a mil e tal quilómetros, uma ameaça, ainda por cima, em que para sair do quartel, a 200 metros já convinha ir com a picazinha ver se havia minas ou não, foi mau, mas… passou, felizmente não me aconteceu nada, não… tive colegas a quem lhes aconteceu alguma coisa, mas é melhor nem pensar nisso, é melhor”.

“Eu acho que não posso de maneira nenhuma aceitar que um indivíduo que fez a tropa, que foi comando, que entrou, como ele diz, em várias ações de chacina mesmo e que de repente vai pedir desculpa, não posso, não posso. Eu estive na tropa, se matei ou não matei não interessa, o que interessa é que enquanto estive lá, de certeza absoluta se eu tivesse que disparar eu disparava ou então disparavam sobre mim. Não tenho que pedir desculpa, tenho é que esquecer e tenho que mudar toda essa filosofia. Por isso é que eu digo, quando aqui se faz alguma coisa, faz-se grupos a determinado sítio… eu vou a Moçambique proximamente, mais a minha mulher, mas é para visitar os sítios, para conhecer, não vou pedir desculpa a ninguém, não devo nada a ninguém”.

“…há meia-noite [do dia 25 de abril de 1974] aparece-me uma viatura da minha companhia que ia fazer um abastecimento, que ia andar mais 30, 40 quilómetros dali e quando eu os vejo, aquilo era uma zona calma, uma zona de descanso, chamemos-lhe assim, eu vejo-os armados até aos dentes e perguntei ao cabo que ia na viatura “eh pá, estás em guerra?”, isto numa, é claro que depois dali sim, depois dali aquilo já se começava a tornar mauzinho e ele disse-me “eh pá, não sabes de nada, então deu-se um golpe de Estado!”, e eu “golpe de Estado?”, eu não sabia o que era um golpe de Estado e no entanto eu tenho o curso comercial, o antigo quinto ano, portanto não era tão inculto como isso. “Golpe de Estado, mas golpe de Estado é quê?”, “Eh pá, golpe de Estado, o exército, os militares tomaram conta daquilo” e eu fiquei nas dez e nas onze, para mim era igual. Portanto, ele depois foi-se embora, foi fazer o abastecimento de géneros e não sei que mais e eu fiquei na mesma e só às dez da manhã é que vem no rádio a dizer que tivéssemos cuidado e não sei que mais, porque havia um golpe de Estado, foi destituído o Marcelo Caetano, aí é que eu comecei a perceber, espera aí, há qualquer coisa. Só aí é que eu começo a entender o que era realmente a política, para mim… depois comecei a ver o que era realmente o comunismo, o socialismo, porque nada disso entrava no meu vocabulário. Para mim, isto é assim, eu gosto de falar abertamente das coisas, porque é abertamente que a gente chega a conclusões e estar a dizer aqui que eu sabia e conhecia, é mentira, para mim os comunistas comiam meninos ao pequeno-almoço. Eram os gajos da Rússia que andaram para lá e que mataram estes, aqueles e outros e que ajudavam os gajos da FRELIMO, esta é a verdade. Para nós o comunismo era isso, não havia diferenças em comunismo e socialismo, a palavra socialista apareceu-me depois com o Mário Soares. Não… hoje a minha filha, muito mais cedo aprendeu o que era tudo isso, nós não. É claro que se me perguntarem “soube bem a liberdade?”, ah, é verdade, não tenhamos dúvidas nenhumas que o facto das colónias se tornarem independentes foi muito bom, agora há coisas com as quais não concordo, de resto acho que sim, acho que isto já devia ter sido feito após, e isto é a minha maneira de pensar, após 15 anos de Salazar”.

 

João, natural de Moçambique, vive em Portugal, 59 anos

Entrevista concedida no âmbito do projeto de investigação: “Narrativas Identitárias e Memória Social: a (re)construção da lusofonia em contextos interculturais”, financiado pela FCT (PTDC/CCI-COM/105100/2008)

 

Autoria da imagem: Vano (uso livre)